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Cinema

Crítica | Era uma Vez em… Hollywood

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

O diretor Quentin Tarantino retorna em seu nono filme trazendo dessa vez a história do assassinato de Sharon Tate por Charlie Manson e sua turma, porém não é disso que o filme trata, a nova fantasia “tarantinesca” é sobre a Hollywood de 1969, a Hollywood de mansões e festas na piscina, dos astros em decadência e dos astros em ascensão, é sobre hippies, é sobre atores, sobre dublês, sobre cinema, e no meio disso tudo tem também Sharon Tate e família Manson.

Era uma vez em Hollywood não é de modo algum um filme perfeito. Enquanto o escopo e a edição divertida dos épicos de Tarantino geralmente justificam seus comprimentos, o filme tem um segundo ato visivelmente bastante arrastado. As recriações do “faroeste espaguete” ocidentais são desnecessariamente masturbatórias, alongando um tempo de execução já indulgente; A falta retumbante de Sally Menke, que repentinamente faleceu em 2010, tornou-se muito evidente em seu trabalho posterior. Ao mesmo tempo, este é o Tarantino um pouco mais contido. Ao contrário de seus filmes anteriores, que consistem quase inteiramente personagens originais, ele principalmente sucede a limitar-se aos fatos do mundo real no que diz respeito à família Manson e suas vítimas. Debra Tate, irmã da vida real de Sharon, foi pessoalmente consultada sobre o projeto e apoiou a representação da atriz Margot Robbie, mesmo que ela desejasse que Sharon tivesse mais tempo na tela. A maioria de suas cenas limitadas é inócua e semi-mundana. Ela alegremente salta sobre a cidade correndo, e contente quando vê um cartaz de filme com seu nome nele. É exatamente o que Sharon deixou de fazer: simplesmente viver para testemunhar seu próprio sucesso.

O que nos leva ao grande debate: mulheres! Eu sempre fui fã das personagens femininas Tarantino. A noiva, O-Ren Ishii, Jackie Brown, as personagens femininas de A Prova de Morte, Shoshanna, etc. são complexas e duras, papéis carnais que tradicionalmente não eram oferecidos às mulheres. Pessoalmente, é decepcionante que este filme não tenha um grande momento vivido por uma personagem feminina. Muito parecido com os seriados televisivos do período, ele se digna inquestionavelmente a valorizar e valorizar o poder masculino. Cliff é retratado como um super-herói adjacente, tão fisicamente forte que ele está no mesmo nível de Bruce Lee (Mike Moh), tão legal que ainda gostamos dele mesmo depois de aprender sobre seu segredo obscuro que gira em torno de sua presença no set. Não estou sugerindo que todo personagem deva ser sempre um farol brilhante de moralidade. Estou sugerindo que a experiência de estar num cinema cheio de homens aplaudindo e rindo enquanto um homem ataca violentamente uma mulher (mesmo em legítima defesa) é totalmente desagradável.

Também é desagradável assistir a cenas desses homens poderosos na indústria cinematográfica defendendo seus amigos de rumores (provavelmente verdadeiros), particularmente no contexto da história de Tarantino de proteger e capacitar seu amigo produtor Harvey Weinstein. A breve aparição de Roman Polanski (Rafal Zawierucha) é historicamente precisa e compreensível, mas Rick não se preocupa com o trabalho do diretor, mesmo que seja o primeiro. É verdade que os personagens não sabem que crimes violentos ele vai cometer, mas o público o faz. Apenas diga que O Bebê de Rosemary era bom e siga em frente! A coisa toda parece especialmente nojenta, considerando os comentários de Tarantino em 2003 sobre a vítima de Polanski, Samantha Geimer, embora seja importante notar que Geimer desde então aceitou as desculpas pessoais de Tarantino a ela, e expressou desconforto com seu estupro sendo usado para atacá-la.

O diálogo aponta essa tendência para os homens se unirem e ignorarem as mulheres que protestam, mas não oferece nenhuma crítica real à prática. Você poderia argumentar que é apenas preciso para o período, que Tarantino está pretendendo construir uma cápsula do tempo autêntico e verdadeiro para a vida. Porém, esses abusos de poder ainda acontecem agora. O próprio Tarantino contratou Emile Hirsch, que atacou publicamente uma executiva, para interpretar Jay Sebring neste mesmo filme.

Essa falta de empatia por todas as mulheres – não apenas pelas Manson Girls – afetadas pelas ações repugnantes desses homens torna essa misoginia ocasional muito mais difícil de engolir. As Manson Girls são completamente vilanizadas, mesmo comparadas aos nazistas que um dos personagens do filme de Rick aniquila. Obviamente, as meninas não deveriam ter feito o que fizeram. Apunhalar cinco pessoas, incluindo uma mulher grávida, até a morte é indiscutivelmente repreensível. Colocar a culpa diretamente nos ombros dessas garotas desfavorecidas e impressionáveis, compará-las aos vilões nazistas de um dos filmes de Rick, omitir as maneiras como Manson fez uma lavagem cerebral delas, são escolhas desconcertantes.

Saindo um pouco de recorte que fiz sobre as personagens femininas do filme, é animador ver Tarantino trazer a representação de amizade pro filme – mesmo que a dupla não compartilhe muito tempo de tela, eles ainda estão ligados em seus momentos de ausência. Há um calor aqui que não esteve presente em seu trabalho desde Jackie Brown. Há alma no filme, e há mais alma etérea aqui do que Quentin Tarantino mostrou em muito tempo, senti isso nas cenas de Leonardo DiCaprio com a atriz mirim e os pés de Margot Robbie no cinema curtindo a platéia rindo de sua desajeitada personagem. Ainda assim, apesar de alguns momentos maravilhosos e maravilhosas e injeções de gentileza e simpatia, este filme é mais bem descrito pelo modo como Cliff Booth alimenta seu cão: colocando dois pedaços enormes de comida enlatada em uma tigela, dizendo ao cão que ele não pode comer imediatamente, em seguida despesa uma pilha de ração na tijela, para só depois deixar o cão se alimentar. Tarantino é Cliff Booth neste caso e nós somos o seu cão, sujeito a sentar e assistir e não criticar ou reclamar, porque Tarantino está apenas fazendo mais um filme. Agora que você foi paciente e aguentou até o final, aqui está a violência que você queria.

Era uma vez em Hollywood não é uma história crucial implorando para ser contada. É feito sob medida para uma multidão de nichos de pessoas intimamente familiarizadas com a cultura do final dos anos 60 em Los Angeles. Deixe as expectativas de espetáculo constante na porta e aprecie-a pelo que é: um descontraído passeio pela neblina de Hollywood.

Era uma vez em Hollywood teve estreia no dia 15 de agosto e segue em cartaz nos cinemas.

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