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Cinema

Crítica | A Vida Invisível

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

O filme A Vida Invisível, do diretor Karim Aïnouz acaba de estrear, e é um filme que já se tem uma força antes mesmo disso, e um dos motivos é o filme ter sido premiado no Festival de Cannes na categoria “Un Certain Regard”, além disso o filme está vestindo a camisa do Brasil pra representar o país na corrida do Oscar 2020. Filme esse que também carrega a atriz que talvez seja a mais respeitada no país atualmente, Fernanda Montenegro. Se esses detalhes já são suficiente para fazer uma pessoa ver o filme, imagina quando ela descobrir que vai dar de cara com um dos melhores filmes de drama que o Brasil já produziu nas últimas décadas. E é sobre isso que eu quero falar.

O filme de Karim Aïnouz é uma adaptação do livro de Martha Batalha e imprimi na tela um melodrama clássico e poderoso. A adaptação do livre é percebida no roteiro quando alguns personagens soltam algumas frases, frases essas que soam poéticas, mas ao mesmo tempo orgânicas, pois correspondem a atmosfera que o filme coloca em tela. No filme, acompanhamos a história de Eurídice, uma jovem talentosa, mas bastante introvertida, também de Guida a sua irmã mais velha, que tem o oposto do seu temperamento. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor.

E os caminhos distintos que as personagens femininas tomam é posto de forma metafórica logo no início do filme, onde Eurídice e Guida acabam se desencontrando no meio de uma mata no Rio de Janeiro. Ambas possuem sonhos, mas mal sabem elas que o patriarcado reserva apenas uma jornada, a jornada em que elas se deparam com a existência de um futuro idealizado, pois a mulher sempre é ofuscado por normas sociais e ideias conservadores. E essa atmosfera percorre o filme como um todo, em cada fala, em cada ação, tudo é impresso em forma de denúncia. E graças ao trabalho tanto da direção como da fotografia, o ponto de vista das protagonistas funcionam de maneira orgânica e afirmam a estética do filme.

É difícil explicar o quão estreita é uma linha tênue que este filme caminha com todas as suas sensibilidades. Ele vive profundamente em seu drama, evitando as armadilhas do melodrama, evoca pura nostalgia sem soar meloso, possui sua peculiaridade, mergulha no naturalismo sem ser prosaicamente esteticamente realista, e explora longos períodos de tempo enquanto ainda com cenas íntimas que só nos fazem mergulhar ainda mais no pensamento da personagem.

O aprisionamento é o princípio temático e estético que define suas vidas. Guida, presa com um filho pequeno, é acolhida por uma ex-prostituta. Eurídice, enquanto isso, tem pouco tempo para cuidar de seus talentos musicais, pois está presa em um casamento com um homem desagradável, que é incapaz de discernir a perspectiva sutil da mulher com quem se casou. E, assim, Louvart e Aïnouz mantém essas mulheres presas. Uma cena de sexo que dura o tempo suficiente para causar desconforto coloca Eurídice entre um homem e um sofá. Guida em trabalho de parto fica presa entre o quarto de hospital e os médicos prestativos, mas apáticos. “Eu deveria ter trancado você em um quarto e jogado fora a chave”, diz o pai delas para uma das irmãs desde o início. O que ele não percebe é que ser mulher ja é estar em uma sala sem chave.

Ainda assim, essas mulheres persistem e sua persistência colore o filme com uma esperança que parece deslocada e necessária. Aïnouz efetivamente cria uma narrativa comovente, como o melhor dos melodramas, levando-nos aos limites de nossa capacidade emocional. Mas, o filme é surpreendentemente bem modulado para todas as emoções expostas. Aïnouz entende sentimentos, ele entende a maneira como o expressionismo domina as paletas e exige vinhetas para telegrafar o humor baseado em acaso. A Vida Invisível é saturado em cores, às vezes nos dói olhar para uma imagem por muito tempo. É central na ideia do melodrama, despertando emoções que não temos certeza de que conseguiremos sustentar. A sensação de perda e desespero satura o ambiente, de modo que Aïnouz apresenta uma acusação grave do que significa ser mulher no mundo de um homem. Então o filme se inclina para o feminino. Um par de brincos rasgados entre os dois atua como símbolos visuais, os corpos das mulheres são vasos de esperança e de desespero, e a maneira como a direção de Aïnouz abraça o rosto de Carol Duarte enquanto toca piano diz muita da situação em que a personagem se encontra. Há algo silenciosamente revolucionário no abandono selvagem da emoção aqui.

No meio do filme, uma das irmãs diz: “Descobri o que significa ser uma mulher sozinha neste mundo.” E quando você está sozinha, não é com as fantasias cerebrais que você se apega, mas com as emoções expostas, turvas e sonhadoras.“ A Vida Invisível parece uma memória misteriosa e ambígua, nublada, potente e florida. O filme te envolve completamente e, no final, é difícil tirar isso da sua memória.

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