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Cinema

Coluna Caio Augusto: Crítica | Piedade

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Piedade, filme brasileiro do diretor Cláudio Assis que conta a história dos moradores da fictícia cidade de Piedade é abalada pela chegada de uma grande empresa petrolífera, que decide expulsar todos de suas casas e empreendimentos para ter melhor acesso aos recursos naturais.

Mesmo que com um roteiro datado, Piedade surge num momento oportuno do cinema brasileiro e trazendo um assunto que nunca se torna ultrapassado sob a égide do capitalismo: a disputa por territórios e a exploração de matéria prima. Não gosto da escatologia de Claudio Assis. Talvez seja mais pessoal mesmo. E Piedade é uma tentativa de ser fofo que me soa muito como reflexão dos efeitos causados tanto na tela quanto na própria carreira do diretor. Trocar o sertão pelo mar, por si só, já traz novos ares. Nos deparamos, então, com uma correção, uma afinação, de um cinema que já questionava os modos do cinema desde o início. Mesmo que sempre tenha sido sobre o suposto afronte de mostrar o sexo e a degradação pra dizer que o cinema pode ser feio. Piedade vem pra lidar com todas essas auto análises mais no cotidiano que no limite da vergonha.

Por isso o filme funciona, de um jeito ou de outro. A gente é levado e, mesmo que aos trancos e barrancos, é interessante ver a trama dessa novela. Entre um emaranhado de auto-referências, vemos os atores contarem suas histórias a partir de um blocking preciso e marcado. Cláudio Assis se basta em colocar os atores na cena e a primeira discussão entre Omar e Aurélio mostra isso muito bem. A pesquisa de Assis sobre o que o cinema pode fazer parece muito mais coesa quando ele se basta numa mise-en-scene tentada sempre que possível no meio do drama familiar. Ao dispensar a crítica aos costumes, Cláudio Assis fica mais livre e direto e talvez mais maduro.

Composto em quase sua totalidade de planos longos e uma câmera atenta e cuidadosa, Assis entrega uma história novelesca, mas coerente com sua identidade visual agressiva construída ao longo de sua carreira, embora bem menos polêmica que suas obras anteriores. Falta o tradicional despudor tradicional de Assis na composição das cenas de sexo entre os personagens de Cauã Reymond e Matheus Nachtergaele, assim como colocar Gabriel Leone como filho de Cauã foge um pouco da verossimilhança. Dito isso, o longa constrói e defende bem sua atmosfera, agindo com cuidado pra não cair no tom melodramático que uma história como essa pode ter.

Na abordagem social, o filme tem um resultado bem sucedido ao representar os antagonismos de interesses entre a população de Piedade e o da Petrogreen, mas possui falhas cruciais ao tratar da resistência contra a exploração da petrolífera. Falta ímpeto e força de vontade para construir uma dinâmica bem elaborada das razões dos grupos de resistência, bem como o apontamento para a raíz do problema: a busca desmedida por lucro e o estágio catastrófico e putrefato do capitalismo financeiro. Mas é o suficiente para despertar reflexão e até incômodo nas percepções mais sensíveis.

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