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Coluna Bruno Baldan: o que é Heterossexualidade Compulsória e os problemas que traz à sociedade

Operários - quadro pintado em 1931 pela pintora Tarsila do Amaral usado em alusão a sociedade
Operários - quadro pintado em 1931 pela pintora Tarsila do Amaral usado em alusão a sociedade

Em um mundo onde coexistem quase 8 bilhões de pessoas é impossível, para não dizer deprimente, querer ou entender que todas elas devam seguir um mesmo padrão de comportamento, consumo, gostos e sexualidade. Mesmo com o uso do bom senso nesse quesito, esse desejo existe e é muito comum até os dias de hoje, em especial em relação à sexualidade, criando-se toda a dificuldade de lidar com as questões de todo indivíduo que foge à regra da heterossexualidade, este sendo bombardeado de expectativas de uma vida heterossexual pela sociedade que não lhe cabe. Essa problemática da normalização de apenas um espectro da sexualidade tem nome e se chama heterossexualidade compulsória. O nome descreve exatamente como isso é tido no mundo como a heterossexualidade sendo obrigatória, de fato e tendo consequências das mais variadas.
 
Um dos riscos desse padrão tido como “normal” é o de categorizar comportamentos e desconsiderar o bem estar de pessoas, em sua maioria, não-heterossexuais, gerando variados transtornos psicológicos como a homofobia, ou problemas de autoaceitação de quem se descobriu parte desse meio. Parte da minha infância e adolescência fui podado para que meus trejeitos não sobressaíssem à masculinidade que deveria seguir, como se apenas o transparecer do comportamento ditasse a regra de ser hétero ou homossexual. Essa exigência por comportamento masculinizado, ainda que imposta a um homossexual como em meu caso, é nociva a ponto de criar homofobia a pessoas do meio LGBT, sendo todo aquele que discrimina o comportamento mais afeminado de outros membros de sua própria comunidade, gerando o gay heteronormativo, por exemplo. A heteronormatividade, sendo parte da heterossexualidade compulsória, é a preferência e saudosismo para com o comportamento masculino do homem. O homossexual heteronormativo se comportará como um homem cis hétero (homem que se identifica como homem) e demandará o mesmo padrão de comportamento de seus pares, recriminando o restante, por mais que não nos faça sentido a existência de um gay homofóbico. A existência destes corrobora com o discurso dos heterossexuais homofóbicos, uma vez que eles perpetuam a fala de que “tudo bem ser gay, mas não parecer gay”, ferindo a existência da diversidade e toda a beleza que há nisso.
 

Operários - quadro pintado em 1931 pela pintora Tarsila do Amaral usado em alusão a sociedade

Operários – quadro pintado em 1931 pela pintora Tarsila do Amaral usado em alusão a sociedade


Em contrapartida, o homem cis hétero, mesmo em todo seu privilégio, se vê numa dualidade de vítima e agressor em sua vida, pois isso demanda dele tal restrição de comportamentos que, quando “falha”, o mesmo se torna alvo de bullying por ser alguém mais sensível e não o ogro bruto do qual sempre foi ensinado a ser. Esse homem tem para si que é errado expressar sobre seus sentimentos, caso contrário ele é taxado de fraco, quando não de homossexual, que para seu grupo é uma ofensa e motivo de chacota. Ao internalizar esses sentimentos, o homem hétero se torna cada vez mais ranzinza, frustrado e chega até se tornar violento e/ou depressivo. Isso quando o mesmo se vê em dificuldades de relacionamento para cumprir seu papel intrínseco de pai de família, sendo a única forma que conhece de felicidade e objetivo de vida, sendo mais uma vítima de uma sociedade voltada a um único modelo.
 
Em vários estudos, apresentam-se também as consequências para as mulheres, onde o patriarcado implícito nisso lhes recai para conferir-lhes capacidades inferiores, submissividade, necessidade irreal de um homem, inclusive como indicativo de felicidade e os ritos tradicionais como o casamento. Nada disso deveria ser o normal, mas o é também por conta da heterossexualidade compulsória, sendo proibido o casamento ou até mesmo o apadrinhamento por casais homossexuais em casamentos. A mulher hétero que tem sua vida no esporte se vê vítima da lesbofobia, principalmente quando seus corpos possuem traços mais masculinizados e ignoram o fato da construção do corpo ter sido construído para performance do esporte. Um exemplo foi ter presenciado comentários da mundialmente conhecida tenista Serena Williams, que, em conversas triviais, ouvi dizerem considerar seu corpo muito parrudo para uma mulher, o que comprometeria sua beleza. O julgamento por aparências, trejeitos e porte sobressai à performance de ponta da tenista e só não compromete sua busca em ser cada vez melhor por ela já ser consolidada em sua carreira no esporte, mas o problema reside nos julgamentos contra quem ainda não tem o patrocínio de marcas da tenista e possui mesmos sonhos de realização profissional.
 
Divulgação Serena Williams

Divulgação Serena Williams


Na vida de uma mulher lésbica o problema se faz presente desde a descoberta da sexualidade até os últimos dias dela, isso porque muitas mulheres lésbicas passam por fases de sua própria aceitação, que incluem o relacionamento inicial com homem por indução da sociedade e o desconhecimento prévio da possibilidade de seu orgasmo ser de forma diferente ao modelo heterossexual. A mulher é informada desde sempre que a única forma de relação sexual envolve o membro masculino, então logo em seus primeiros contatos é muito comum que ela tenha relações com homens e, como o sexo é um tabu, a mesma acha que o que ela teve foi um orgasmo, se mantendo na relação sem permitir-se questionar sobre seu próprio prazer e por vezes nunca ter tido orgasmo algum. Ao se dar a chance de seguir com sua descoberta de sexualidade, ela consegue se desvencilhar aos poucos de toda essa imposição e se aceita para viver sua própria vida, dona de seus prazeres, mas ainda esbarra no machismo e misoginia que a heterossexualidade compulsória traz consigo e se vê no, ainda mais problemático, viés de fetichização e subserviência ao homem. O homem, mesmo fora da relação, ainda se vê pivô disso e devaneia em fantasias com essa formação de casal homossexual feminino e atrela sua existência ao prazer dele, desconsiderando a independência que tais mulheres buscaram a vida toda para conquistar.
 
Divulgação casamento homoafetivo

Divulgação casamento homoafetivo


No quesito legislativo, eis aí todo o cerne da busca por equidade para com os direitos LGBT, afinal, sempre precisamos de condenações para aqueles que ferem a existência dos membros dessa comunidade, tendo poucas vitórias e estas muito recentes, como a criminalização da homofobia, que só ocorreu em meados de 2019. É inconcebível que, apenas tão recentemente a proteção do direito à vida de LGBTs tenha sido votada. Inclusive o casamento homoafetivo se vê podado por simples capricho em todos esses anos, sendo que não buscamos o rito em si, mas os direitos inerentes ao casamento por um casal homossexual. Casal esse que se vê impedido de obter os direitos de uso de convênio médico de seu parceiro por ser homossexual, que se vê com dificuldades em adoção de uma criança, que diga-se de passagem, foi gerada e abandonada por um casal heterossexual, isso tudo por conta do mundo ser voltado excludentemente à heterossexualidade.
 
A luta contra o mundo aos moldes da heterossexualidade compulsória persiste e, principalmente para deixar claro que ao prever direitos a quem é diferente não significa que o heterossexual perderá direitos, muito pelo contrário, todos nós poderemos viver muito mais harmoniosamente e por isso é importante que não só o LGBT possa lutar por isso, como também o heterossexual. Todos deveriam ter direito a uma vida plena, uma vida de paz, independente de ser com o outro ou consigo mesmo e, só é possível garantir isso através da conscientização e mobilização em prol dos direitos para TODOS.

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