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Coluna Bruno Baldan: homem com H

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Por tempo demais perpetuou-se a ideia de que o homem com H (maiúsculo) era aquela figura tristemente caricata do personagem bruto, rústico e agressivo. Desde que me conheço por gente, fui bombardeado com a ideia de que a fragilidade estaria ligada à feminilidade, como se fosse algo negativo, e que, portanto, demonstrações afetivas seriam tidas como sinais de fraqueza, se expostas por parte do homem. Tantos anos depois, nos vemos em um mundo com homens cuja depressão foi originada dessa demanda de brutalidade infundada. O que talvez tenham esquecido de me contar é que ser homem está muito além de ser essa figura, desatrelado a ser o pegador da turma, que investe nas mulheres como se fossem prêmios de uma disputa entre egos masculinos. Isso acendeu uma luz de alerta quando me descobri homossexual, em meados dos anos 1990. Hoje entendo melhor que ser homem tampouco importa ser portador do órgão genital masculino, que tanto foi valorizado através do tempo e sobrepôs a tudo e todos para seus prazeres, como fui ensinado durante minha infância. A meu ver, ser homem nada mais é que assumir quem é, assumir seus privilégios e seu contexto histórico, como provedor de injustiças tamanhas o suficiente para discutir e reparar seus próprios atos contra quem diziam ser inferiores a si.
 

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Em situações cotidianas, muitos dos homens se veem nesse protocolo de masculinidade tóxica, com seu humor por vezes misógino, outras tantas homofóbico e enaltecendo a ferramenta da qual sempre lhe concedeu todo esse poder, ignorando o fato de que ser homem é uma condição que não está ligada ao órgão, mas sim ao ser. Dessa premissa podemos expandir o conceito e finalmente entender que existem pessoas que se identificam com o gênero masculino, intitulando-se homem, mas sem a presença obrigatória da genitália masculina. Isso nos leva à necessidade de compreensão do que é ser homem, sendo este cis ou trans, desvendando ainda paralelamente sua sexualidade, gerando possibilidades das mais variadas entre essas combinações e outras mais.
 
A pessoa que nasce com a genital masculina e se identifica como homem é o que chamamos de homem cisgênero. O homem cisgênero é o que mais comumente vemos, nascendo com sua genitália de acordo com seu gênero. Falando sobre sexualidade, este pode ter sua sexualidade definida de diversas formas, como heterossexual, homossexual, bissexual ou infinitas outras. O homem cisgênero heterossexual, sendo este quem se atrai pelo sexo oposto, é o que estaria no topo da cadeia de privilégios, que muitas vezes também têm dificuldade de entender que ao garantir direitos para os demais não perde os seus, ao contrário, este pode gerar um mundo mais harmônico e propenso a discussões e desenvolvimentos mais ricos à sociedade. É preciso que o homem cisgênero heterossexual entenda seu lugar de privilégio e ajude na luta para essa melhoria, a partir de sua influência já inserida nessa construção hierárquica de direitos. Isso pode acontecer dando voz às minorias em cada local de fala, quando da discussão de seus próprios direitos no mundo político e, acima de tudo, conversando entre si sobre tais assuntos.
 
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Já o homem cisgênero homossexual, de mesma forma, nascido de acordo com sua identidade de genêro, tendo a genitália masculina e se entendendo como homem, não deixa de usar o pronome masculino, que muitas vezes é negligenciado em tom de humor sem a devida autorização em tom vexatório. Importante lembrar que isso só deve ser feito em casos isolados a quem permitiu tal liberdade, das quais muitos de nós nos encontramos restritos ao uso íntimo e, por culpa do primeiro, somos inferiorizados por conta da feminilidade que eles vêm. A este, como segundo na linha hierárquica de masculinidade, cabe sua própria luta por direitos e cabe lembrar da importância de se ouvir seus companheiros da sigla LGBT+, que podem e devem emprestar seus espaços para lembrarmos do restante das minorias.
 
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Entendendo, agora, a definição de uma pessoa cisgênero, podemos discutir sobre o que é ser uma pessoa transgênero, que é alguém cuja origem física difere de sua identidade de gênero. Um homem transgênero é um homem que nasceu possuindo genitálias femininas, mas nunca se entendeu como do sexo feminino. Após seus processos de entendimento sobre sua própria persona, o homem transgênero faz o uso de hormônios, com devido acompanhamento, e realizam as cirurgias que lhe provê o físico que mais se adequa a quem é. Nesse contexto, existem 2 questões em relação à cirurgia do homem trans que dita se o mesmo é binário ou não-binário. O homem transgênero não-binário é um homem que retirou as mamas, mas possui genitália feminina e o oposto, o homem transgênero binário é o homem transgênero que fez toda a transição da genitália feminina para a masculina. Ainda que o SUS (sistema único de saúde) possua estrutura para a transição, a pessoa transgênero lutou muito mais durante sua vida toda para que esse direito lhe fosse concedido, ainda que limitado aos hospitais específicos para este tratamento, precisando ainda mais do apoio político para que suas necessidades sejam vistas sem preconceito e com mais empatia. Vale ressaltar que a sexualidade nada tem a ver com ser transgênero, podendo este, ser um homem transgênero binário ou não heterossexual, portanto se relacionará com uma mulher, ou podendo ser um homem transgênero binário ou não homossexual, se relacionando com outro homem.
 
Como um organismo vivo, assim é a língua, que de tempos em tempos sofre atualizações e abrange significados mais amplos e são transformados. O homem com H outrora foi o provedor de malefícios ligados à virilidade, mas hoje o termo deve ser ressignificado para ir ao encontro daqueles que o são independente de sua orientação sexual e gênero, que lutam e possuem méritos reais de se orgulharem, ao invés do infame clássico machista, misógino e homofóbico. Nós, enquanto sociedade, temos o dever de promover a inclusão e fomentar a discussão do assunto para que isso saia do papel, sem o medo irreal de termos nossos direitos limitados por isso, mas com o entusiasmo por construirmos um mundo melhor a partir de hoje.
 
 
Para maiores informações sobre o atendimento do SUS a pessoas transgênero acesse:
https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/como-funciona-o-sus-para-pessoas-transexuais/
 
 
Nota do autor: caso alguma pessoa trans esteja lendo este artigo, gostaria de indicar perfis de redes sociais que ajudem a dar dicas do dia a dia sobre o assunto.

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