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Coluna Bruno Baldan: Crônicas negras e o agravante do negro gay

A vida já é suficientemente difícil para pessoas negras, adicione a isso ser parte de outra minoria como a comunidade LGBT e tudo se complica um pouco mais. Tais dificuldades se mostram presentes desde sempre, fazendo parte de uma sucessão de padrões de comportamentos que são moldados da infância para o resto da vida do indivíduo. É possível resgatar na memória, momentos infelizmente marcantes de ser uma criança negra com uma vida boa, mas sem condições financeiras muito positivas, sem luxos ou algo além do mais comum. Tais momentos eram gerados por crianças da mesma idade, gerando segregação e ofensas das mais diversas como preto, encardido, coelho (já que tinha arcada dentária irregular), viadinho, macaco, menininha, frutinha, bichinha…e sim! Tudo isso foi proferido por inocentes crianças, sem filtro, com a intenção de atingir da forma como foi recebido pelo seu alvo de acordo com sua bel vontade, prazer e diversão.

 

Imagem: divulgação

 

Ao passo em que a vida seguia, essa receptividade era repetida de diferentes formas em distintas épocas por inúmeras personas que vinham e seguiam seu caminho, após terem deixado seu legado. O padrão nunca mudou, mas a pessoa que recebe, mandatoriamente sim. Fomos obrigados a ser fortes, mesmo não estando preparados para tal em cada momento, mas ainda houve os que não puderam construir essa força e os lamentos são eternos. As sequelas disso tudo desencadearam comportamentos dos mais variados em cada indivíduo, mas estabeleceu na sociedade algumas posturas de proteção da população negra que é facilmente identificada ao observar convívio social que os brancos não precisam e talvez nunca tenham notado por terem se habituado com isso, quiçá normalizado.

 

Os cuidados que o racismo nos força a tomar estão enraizados no negro e poucas vezes questionado, mas heteros cis brancos nunca precisaram pensar duas vezes antes de abrir a bolsa ou mochila em locais públicos com medo de serem confundidos, tampouco pedir a nota fiscal por conta da presença de um segurança na porta que sempre visa o negro na saída. Outro cuidado que sempre tivemos que ter é andar sempre à frente de pessoas brancas para que não pensem que as estamos seguindo e, para garantir, sempre portar nossos documentos no caso de qualquer abordagem, principalmente do carro por, mesmo quando não pensem que estamos roubando, com certeza nos pararão em blitz policiais por fazermos mais “coisas erradas”, digamos. Mas o mais arriscado de todos e que deve ser evitado a todo custo, é correr pela rua principalmente próximo a viaturas policiais. Como se não fosse o bastante, de mesma forma, o protocolo dos cuidados contra a homofobia se fazem presentes para somatizar a tudo isso e a postura também requer atenção como o medo de olhar para alguém qualquer na rua, mesmo de relance, podendo gerar agressão gratuita caso perceba que somos homossexuais. Esforçamo-nos, também, para que a voz não soe tão fina, na tentativa de impedir a chacota alheia, ou a postura física, que deve se manter em um porte mais duro e bruto que o que nossa essência demanda, isso quando não somos tolhidos de usar quaisquer roupas por parecerem femininas, como se fosse isso a nos colocar em patamares inferiores.

 

Sempre desenvolvi meus próprios métodos de proteção contra todas essas violências gratuitas, sempre no âmbito de diminuir os impactos visuais e comportamentais para me preservar da resposta do outro. Desde criança, foquei nos estudos e entendi que devia melhorar minha comunicação, tornando-a mais correta, limpa e clara, livre de gírias que pudessem me estereotipar tanto no meio negro, como no meio gay para só então ser ouvido. Aliado a esse comportamento, foi a vez do meu visual e padrão de consumo serem definidos, formados a partir de gostos tidos como mais refinados, o que se pode observar como o comportamento de ostentação, com nome propriamente difundido nos últimos anos na música e cultura pop em geral. Esse é um típico comportamento muito evidente por rappers norte-americanos e jogadores de futebol, que geralmente possuem origem humilde e, com sua ascensão financeira, passam a ostentar seus gostos, por vezes exóticos, para que em resposta o comportamento da sociedade seja de que existe a esperança da comunidade mais sensível financeiramente ter esse mesmo tipo de sucesso, mostrando pessoas negras em posições mais comuns às brancas. Voltando ao dia-a-dia de pessoas comuns, tal ostentação tem seus limites de acordo com a realidade econômica e social, obviamente, então todos os cuidados são voltados para que as roupas estejam sempre bem ajustadas, sem marcas de uso, para focar na boa apresentação, tanto pessoal como profissional.

Imagem: Bruno Baldan

Aspectos comportamentais no ambiente de trabalho demandam muita atenção e esforço, pois os padrões requerem uma visão mais “neutra” em sua apresentação. Os cuidados acima citados devem ter uma atenção muitas vezes maior que para qualquer pessoa de etnia branca e sexualidade hetera. Além de serem formados em sua maioria por pessoas brancas, o grande temor de posições hierárquicas superiores ao delegar atividades de contato com demais membros da companhia, de fornecedores ou clientes reside em garantir que os interlocutores não possuam traços raciais ou homossexuais em seus comportamentos e falas. Dizem que tal protocolo é parte da postura profissional aceita, o que faz parte de um racismo estrutural, da mesma forma que uma homofobia em mesmos moldes, mas essas questões se mostram muito enraizadas para serem consideradas como pautas válidas de discussões desse tipo de preconceito e de comportamento de branquitude.

 

Resta a cada um de nós levantar tais discussões no dia a dia e botar uma lupa para que isso seja revisto com mais cautela e respeito, não apenas postar #vidasnegrasimportam. Existem dificuldades de visualizar o racismo e a homofobia, mas entender quais são nossos comportamentos do dia a dia que reforçam isso já é um passo importante da luta, mesmo com esforços e resistência para mudar. Podemos começar um mundo melhor hoje, basta sairmos dessa zona de conforto psicológico em que fomos inseridos desde sempre.
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