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Coluna Bruno Baldan: A queda dos símbolos

Estátua de Edward Colston
Imagem: Divulgação

 

Dias depois dos primeiros e mais significantes protestos nos Estados Unidos, após o assassinato de George Floyd, podemos ver um movimento de derrubada de monumentos ligados ao racismo em vários lugares. O que mais se destacou até o momento foi a queda da estátua do mercador de escravos Edward Colston, em Bristol, na Inglaterra, que acabou  jogada num rio (imagem).

Colston prestou muitos serviços sociais e se destacou como filantropo, apoiando financeiramente escolas, esmolas, hospitais e igrejas. Recursos, contudo, provenientes dos negros escravizados que vendia e eram posteriormente descartados como lixo. Tal histórico revisto e lembrado apenas agora. Pode-se observar o mesmo acontecimento em vários lugares com uma grande parte de obras de arte, em sua maioria estátuas, que retratam figuras históricas que foram homenageadas como progressistas e contribuidores para grandes avanços da sociedade na época, mas conforme revisitamos atualmente, os mesmos possuem sangue negro em suas mãos.

A Queda dos Símbolos

Imagem: Divulgação

Existe significado de manter tais símbolos vivos, mas o que nos leva a crer que isso deva permanecer imaculado, da forma e nos locais como estão? A remodelação de como essas homenagens são expostas pode ser revista, para que a memória seja mantida de forma a nos lembrar do que houve no passado e não nos submetamos a níveis tão baixos como humanos e sociedade novamente.

É preciso entender que o progresso pode acontecer sem o alto custo de vidas inocentes e que podemos atuar como agentes de mudança traçando planos de desenvolvimento sustentáveis. Tais símbolos podem, e provavelmente serão, mantidos em museus ou concentrados em um local para que a contextualização seja feita de acordo com as atrocidades praticadas. Tal solução abre a possibilidade de lembrarmos sempre destes episódio, ao invés de serem expostos como símbolos de vitórias cujas baixas foram insignificantes à humanidade.

Ainda permeia os pensamentos, como grandes questionamentos, os motivos de tamanha morosidade na ação e reflexão para que tais homenagens fossem revistas. É realmente preciso ter sangue espalhado para que a sociedade se mova, principalmente em união a uma causa tão discutida através do tempo? É preciso chegar a um ponto de dor tão excruciante para começar a se mover para promoção de tais mudanças?

Isso tudo faz parte de escolhas de postergar o que deve ser feito para reparações históricas em um falso moralismo ou desafeto quanto à causa, demonstrando uma insensibilidade e falta de empatia com o negro. A maior prova de que a simbologia possui um poder intrínseco é na observância da criminalização da suástica, tida como o grande símbolo do nazismo, que foi responsável pela morte de onze milhões de pessoas, mas mesmo com mais de doze milhões de escravos tirados de seu lar e torturados por anos, os símbolos da escravidão não tiveram esse veto, tendo atenção apenas agora.

Enquanto isso no Brasil

A Queda dos SímbolosA estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, São Paulo, tem sido alvo de mesmo protesto como o da Inglaterra, por este ter sido um bandeirante racista, misógino e ainda por cima assassino. Motivos suficientes para nos inflamar e justificar sua derrocada, mas na via oposta a toda a ideia de progresso e fortalecendo toda essa questão de desrespeito ao negro, a subprefeitura da cidade dispôs de vigilância 24h para impedir quaisquer atos de violência contra a estátua.

Pessoas vivas, que precisam de proteção, entre elas contra o racismo, vêem suas vidas ameaçadas, mas a segurança e os custos que seriam destinados a resolver isso são repassados à proteção de uma estátua de uma figura cuja vida tirou muitas outras. Ainda sendo apenas uma estátua versus a falta de proteção contra vidas (negras), difícil aceitar que digam que vidas negras importam de fato, se ao menor esforço de fazer um ato simbólico, o próprio Estado se nega a fazê-lo e protege um objeto inanimado com os valores de vidas.

Assim como a queda da Bastilha teve um forte impacto como símbolo da Revolução Francesa, a queda dos símbolos que homenageiam os racistas ao longo da história é parte simbólica muito expressiva de uma grande luta que estamos entrando com mais afinco hoje. Da mesma forma que símbolos foram derrubados, novos símbolos podem ser instaurados em seus lugares, espalhando a mensagem de que estamos criando uma sociedade mais harmônica. Resta a nós todos mostrarmos que, de fato,  as tais vidas negras importam, sim.

Por Bruno Baldan
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